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Nestes tempos em que a comunicação digital segue competindo com a mais natural empatia humana, nada mais justo que lançar o olhar sobre matérias sensíveis do espírito humano. Digo isso a propósito da escuta que fiz em março de 2020 do relato do escritor e musicista José Miguel Wisnik sobre a história dele com o educador Haquira Osakabe.
O relato ocorreu em Florianópolis quando Wisnik foi convidado pela editora Cidade Futura a falar sobre sua trajetória formativa. Este educador sansei andou fazendo inscrições notáveis na memória coletiva, instruindo a gente das sutilezas que regem a proximidade do ato educativo. Quem revela isso de maneira quase embargada na voz é Wisnik num relato amoroso dedicado àquele que influenciou sua vida e muitos de sua geração.
Sigo agora os passos dessa escuta sensível de modo a fornecer em palavras um pequeno itinerário do que ouvi. O educador que julga ter aprendido algo, testemunhará o fruto reluzente sobre a mesa daquele que, tendo sido ensinado, retornará ao mestre o que ensinou a si mesmo. Assim, o educador nada mais é do que uma promissora testemunha ocular do feitos que amealhou no mundo, sobre como ser alguém constituído de integridade. Foi isso o que ouvi de Wisnik sobre Haquira: a ausculta de toda um sentimento de época, a minha época.
De início, o relato demarca a titularidade da narração – como vocês verão – ele vai falar da figura do educador invisível e o seu trabalho de vida, na dimensão pessoal e oculta da educação. Por que será que Wisnik enaltece a figura do educador invisível? Arrisco dizer que é porque, ecoando sua própria experiência, nestes tempos de tutoriais e de influencers digitais, estamos todos ausentes dessa relação preciosa, tão necessária aos processos de individuação na formação humana.
Wisnik declara seus começos de vida, onde nasceu, como conheceu Haquira e o que sucedeu, pontuando todos os tópicos possíveis de alguém que vai se constituindo em sua fragilidade vocacional, em busca de ser algo para o mundo e alguém para si. É então que uma sucessão de episódios revela nele a época de combate político e cultural que viveu do final dos anos 60. Aqueles que estão examinando seu futuro, têm aqui nessas passagens a memória de alguém que presenciou a batalha campal ocorrida entre uspianos e mackenzianos, cápsula real das atuais guerras narrativas entre esquerda e direita.
E tem mais, Wisnik emoldura aí a força dos festivais da canção, a tropicália e o cinema novo, o teatro de arena e o teatro oficina, a poesia concreta e as trincheiras revolucionárias e suas barricadas do desejo. Mas, olha só, de toda as cenas que ele descreve, todas muito antológicas, seus olhos brilharam mesmo quando narrou estar junto com o mestre Haquira nos telhados da escola de filosofia, arrancando arames para as barricadas…
Wisnik segue sua narrativa, pontuando os passos e anos de Haquira na academia, os ofícios linguísticos do saber e os saberes da literatura como ofício. Aqui, o antigo aluno de Haquira, mesmo tornado seu colega nas convergências da vida, conta a passagem do mestre pelas terras estrangeiras do velho e do novo mundo e indica, no contraponto, que todos e tais ofícios, apenas atalharam Haquira para o reencontro com a sua vocação literária e poética.
Neste momento, Wisnik adentra Fernando Pessoa, esteio no qual Haquira vai dedicar sua produção textual, seguindo o poeta português, entre almas e estrelas. Uma frase solta surge na sala, Los Angeles é igual a Praia Grande! Era o aluno a dizer que Haquira era e foi sempre o mesmo educador invisível, alguém que não galgava a fama dos púlpitos em favor da proximidade amorosa exigida à feitura de seus alunos e seus leitores. Basta ler os depoimentos em fila contidos no livro Fernando Pessoa: entre almas e estrelas. Talvez aqui, seja isso o que se reclama atualmente na economia da inovação, aquela do sujeito que tudo sabe e opera, mas desprovido ficou de toda empatia na lida com um igual. Haquira, indica Wisnik, era uma criatura doadora de empatias, a troco de maestrias.
Ao caminhar para o fim do seu relato, Wisnik se denuncia no embargo anunciado de sua voz, ao ler um trecho de Haquira, a propósito de homenagem de professores brasileiros ao seu trabalho. Minha vontade foi de transcrever a passagem, mas na voz de Wisnik, o lido soou como sopro de afeto, para além de toda letra traçada. Basta ouvir e olhar o exemplo de como alguém tomou para si a arte que recebeu do mestre.
Siga a escuta sensível.
Publicado originalmente em inovadores.org.br
