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Tendo mergulhado em leituras dos textos de Vilém Flusser, assim como sobre sua vida, participando de colóquios, visitando seus biógrafos, comentadores, pesquisadores, editores e conversando com pessoas que conviveram com ele no Brasil e na Europa, apresento as primeiras impressões desta frequentação e devo dizer que o legado de Flusser é, numa palavra, o de um acervo notável de inquietações filosóficas, de extrema atualidade. Diante delas, sou um leitor-visitante, de modo que as palavras a seguir estão longe das de um especialista, assim como não incidirão em crítica filosófica stricto sensu e sim, palavras de um antropólogo que procura sinalizar as pegadas de Flusser, nas entrelinhas de seus escritos.

Parece-me que a reflexão filosófica de Flusser não deve ser subestimada em sua expressividade, sua escrita. Tal expressividade diz muito quanto aos conceitos que desenvolve, mas não é em nome de um certo teoricismo, essencialismo ou abstracionismo conceitual que devemos secundarizar  sua textualidade, porque sem esta imaginação, suas ideias filosóficas não fariam sentido. Ele não existiria se não fosse expresso dessa maneira. Saber em Flusser é poder expressar. Trata-se de um autor a ser descoberto, dado ser profícuo, polifônico e ambivalente.

Ao final deste mergulho em Flusser devo dizer que fui tomado pela mesma atmosfera nômada, pendulando entre um certo pessimismo filosófico chopenhaueriano e a esperança quase-religiosa de um novo humanismo. Em outras palavras, dizendo à maneira flusseriana, passei a habitar aquelas zonas limítrofes entre a ordem e o caos, estas zonas onde habitam os futuros pontífices, novos atores, urgentes, que para o filósofo, eram necessários na construção de pontes entre universos, espaços e linguagens.

FLUSSER, ESCRITOR
Neste relato, não pretendo adentrar em reflexão sobre os conceitos, as teses, as especulações e os postulados filosóficos de Flusser, nem mesmo acerca de seus diagnósticos de época ou os prognósticos acerca do futuro. Quanto aos temas flusserianos, sabemos que as ideias do filósofo e as sendas abertas por ele, são tão instigantes e estimulantes quanto necessariamente localizadas em sua época e também para além dela. Tais sendas reportam, como legado do filósofo: (a) sua ontologia linguística ou, prefiro dizer, as suas ontologias da linguagem, eixo inaugural de seu pensamento; e (b) a sua crítica da  modernidade, na busca por um novo humanismo na sociedade de tecnoimagens.

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